segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Só tinha que escrever

Ela se sentia triste, angustiada. Estava magoada. Por sorte, não era uma mágoa profunda. Se sentia presa, emperrada. Tudo que ela queria agora era ser livre; poder voar, talvez. Ser um pássaro. (Ah, tadinha, já estava delirando) Queria sentir aquela sensação de poder fazer tudo, onde nem o céu é o limite.
"Talvez, junto com o amanhã, essa sensação venha", pensou. Então ela só tinha que esperar. Só tinha que acreditar. Só tinha que escrever.

O Homem no Ônibus

Ele andava curvado, à procura de um lugar para sentar. No fundo do ônibus, finalmente encontrou um assento vazio. Se acomodou e tirou da mochila os fones de ouvido - aqueles grandes, mais caros e chamativos.
Perdido em seus pensamentos, ele nem imaginava o que as pessoas à sua volta estariam pensando a seu respeito. "Deve ter roubado aqueles fones"; "Ainda bem que não sentou perto de mim"; "Será que esse cheiro estranho está vindo dele?"
O homem pensava em como faria para mandar dinheiro para a família. Pensava se conseguiria um emprego melhor que o atual. Pensava se, um dia, seria "alguém na vida", como falavam por aí.
Finalmente chegou sua parada, e o homem desceu os degraus do coletivo. O motivo do medo e nojo de alguns passageiros foi embora; todos seguiram com suas vidas, sem lembrar, no dia seguinte, que o viram.

São várias as perguntas que tenho para situações como essa, mas a principal é: quando vai acabar? O racismo está enraizado, e tentar desconstruí-lo é a luta de muitos (graças a Deus!). A história eu inventei, mas, claramente, foi baseada em fatos reais.
E aí, você é um dos passageiros do ônibus?